terça-feira, 2 de março de 2010

Os Pedros

Plantei feijões. É,feijões.
Aqueles que você e sua irmã devem ter plantado na 3º ou 4º série. Plantei igualzinho. No pote de plástico com algodão e terra. Minha irmã que disse que ia terra. Eu não lembrava.Pra mim, feijões eram mágicos e bastava apenas água, luz e algodão. Mas ela disse que ia terra, ainda bem. Porque eu sou traumatizada com essas coisas de plantação.

Tudo começou quando eu usava saia pregada e não me preocupava com depilação. Eu deveria ter menos de uma década de vida, quando num bendito dia da árvore a tia, (na época profe era tia e não me perguntem o nome dela, pois isso foi há muito, muito tempo)... continuando!

Num bendito dia da árvore, a tia deu pra cada um de nós, adoráveis alunos, uma muda de árvore para plantar em casa. Eu e meu pai fomos lá pegar adubinho e terrinha para plantar. Não recordo que merda que aconteceu, ela morreu. Han, acontece,né?

Chego na escola e meus queridos colegas vieram me contar com a maior naturalidade do mundo que sim, suas mudinhas estavam crescendo. A minha tinha desaparecido, não sei como, não sei aonde. Quem sabe alguém a seqüestrou, mas na época eu era realista mesmo e conclui que minha muda devia estar estragada e por isso ela não cresceu.
Pois bem. Pai compra outra mudinha, porque a tia disse que todos na vida tinham que plantar uma árvore e bléblé. Dessa vez encharquei a nova muda (redundância o caralho, nova porque era a outra muda, ok?) de tudo possível, pra vir forte, já que a outra era fraquinha e veio estragada.Então, essa daí seria hiper-mega-multi-vitaminada. E seria assim pois a coitada estava com a desvantagem de tempo perdido pela muda estragada e deveria não apenas igualar-se as dos meus colegas-inimigos, mas passar na frente, só pra euzinha aqui ficar com cara de “ coisa-mais-normal-do-mundo-minha-planta-ser-3-vezes-mais-eficiente”.
Então, encharquei de tudo que foi possível minha nova muda, e obviamente, morreu afogada a desgraçada. Na época eu nem imaginava que isso seria apenas o começo.

Meu vô, han meu avô querido que agora deve estar no céu jogando dominó e bebendo pinga, me deu uma pitangueira. Essa daria certo, sem dúvida. Muda do meu avô, que modéstia parte sabia sim, como só avôs sabem, plantar. Mas como todos os avôs, ele também sabia muito bem sacanear seus netinhos.Adivinhem? Depois de anos a pitangueira cresceu razoavelmente. Mas pitanga que é bom? Nada! Nem um brotinho, nem verde, nem madura, nenhuma!!! Infértil, totalmente broxa a desgraçada. Tudo bem, eu sou mais forte que isso, suportei. Mas ainda olho pra bendita pitangueira com esperanças de que algo que não seja folha nasça dela.

Eis que, agora, sem saias pregadas, já madura e forte o suficiente para ter superado meu passado, estava no mercado com minha mãe, na sessão de verduras, quando me deparei com vários pacotinhos de sementes de flores. Algo instintivo e ao mesmo tempo vingativo me fez pegar dois deles. Fiz tudo direito: deixei as sementinhas 24 horas no frízer (como dizia a embalagem),fui no canteiro da janela do meu quarto com a enxada e afofei a terra (como dizia a embalagem), dei pouca água (como dizia a embalagem), joguei as sementes com distância de 20 cm entre elas(sim, como dizia a embalagem) e conversei muito com elas (como dizia o Chico Bento) e, finalmente, admirei minha obra, com olhos de quem faz macumba pra uma florzinha querida nascer. Uma gente, apenas uma já seria minha glória, pois temi que meu catastrófico passado de plantadora voltasse a tona.

Na mesma semana, conversando com o pai,me sentindo uma verdadeira sábia do plantio, contei minhas proezas de plantadora. Ele, com aquela cara de pai e voz de pai me perguntou quantos cm na vertical eu plantara as benditas florzinhas. Eu, me achando por informar tal dado a ele, disse que no máximo 2 cm.
Aqueles segundos de silêncio mórbido e drástico que antecede a resposta, temi o que ele viria a me dizer. E ele, com sabedoria de pai e voz de pai me avisa que pombos devem ter comido tudo. Numa fração de segundos recordei que depois de uns 3, 4 dias do plantio uma ninhada gigantesca de pombos vinha me acordar 5, 6 e poco da manhã na minha janela. Uma barulheira do caralho, e pia daqui, pia de lá. Eu havia chegado a pensar,como pensa alguém que é acordado neste horário madrugal: “ devem estar no cio, brincando de esconde-esconde ou coisa parecida.”

Vocês imaginam a raiva que fiquei de pombos depois disso. De pombos, da minha ingenuidade de achar que pombos gostavam da minha janela, da cretina embalagem que não me avisou da profundidade que deveria plantar a porra das flores, e de todo universo que rodeia esse bendito mundo de plantação. Gente, vocês acreditam que não se salvou uma única florzinha? E não era rosa ou aquelas flores espetaculares! Plantei aquelas florzinhas ralés, que brotam em qualquer terreno baldio cheio de lixo e terra seca!! Sim, meu canteiro não tem nem sinal de broto de flor. Se é que isso existe.

E assim, tomada pela raiva, pelo desprezo da mãe natureza, caluniada por plantas, por árvores broxantes, mudas que desaparecem, que se afogam,que nem viram broto, resolvi tomar a única decisão que restava: Plantar feijões em potes de plástico.

Sim. O ato ocorreu quarta-feira passada (exatamente uma semana e um dia atrás). E vocês não imaginam. Os feijões viraram raízes. E viraram caule, folha, com uma rapidez tamanha, mas tanta, mas tanta, tanta, que até o João Pé de Feijão ficaria a-pa-vo-ra-do. Sim, porque agora, as plantas poderiam se vingar e fazer o contrário!! Poderiam fazer crescer tanto este feijão a ponto de temê-los. E conseguiram. Pensei em colocá-los pertinho da minha cama, ao dormir. Mas só por precaução, os coloquei bem longe, numa distância impossível deles crescerem e entrarem pela minha guela.

E hoje, sou uma moça (sim, cresci) feliz, porque feijões consegui plantar. Existe uma técnica toda especial, apurada, que não contarei aqui. Se quiser saber, vá comprar um livro sobre como se planta feijões. Não meus queridos, eu não precisei comprar. Por anos de luta, adquiri toda experiência necessária para conseguir tal mérito. Mas preciso declarar que não sei o que fazer com os Pedros (nome dos meus feijões), que em uma semana e um dia não param de crescer.


------texto de 2004.----------

8 comentários:

  1. má guria, comé q tu qué q eu leia teus post se tu escreve umonte?!
    eu não vô lê td isso de novo...

    e mais uma vez sendo o primeiro a comentar?
    dps dizem que sou lerrrdo...

    hihihi

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  2. Eu sei aonde aprendeu a plantar super feijões.
    Provavelmente aprendeu a saltar de avião utilizando sacolas como para quedas também!!

    ¿V C S F?

    Depp

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  3. quanto tempo que não ria dessa maneira...
    gostei do texto, beleza (como vocês dizem).
    beijão, luiz...

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  4. Que texto delícia.. haha! Dei muita risada!
    Obrigada por ter nos dado este blog de presente...

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  5. clap clap clap..
    que bom voltar a ler a mente da caroline :D

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  6. Que eu lembre não vai terra nos feijões plantados em potinhos de plástico, creio que descobriu uma nova técnica. Você deveria ter plantado xuxu, isso sim é impossível errar, sério mesmo, nasce em qualquer canto. E em relação aos malditos pombos bolivianos da claro, poderíamos importar uns quero-queros assassinos. Ótimo texto, ri bastante.

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  7. a irmã mais linda \o/19 de março de 2010 às 22:51

    aa faltou uma história! será que vc não morava mais aqui?
    compramos mudinhas para o cateiro da janela,
    afofamos a terra, enterramos na altura certa, molhamos todos os dias no final da tarde pra não queimar. Uma semana depois começaram a trocar o telhado e todas as telhas velhas e restos foram jogado daquele lado!!!!!
    eu acho que é o nosso canteiro que tem uma praguinha
    bejos
    vem loogo pra gente se encher de chocolate

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  8. Amiga, não li tudo pq to com preguiça, mas já ri muito até a sua árvore morta... Será o desejo de morte q se instalou precocemente na sua vida? ou foi o destino q fez ela não vingar pra vc ficar obcecada com isso e um dia virar uma madeireira profissional rica e sem preocupações com a conexão do seu ísquio com seu calcanhar?

    Vou ler a prestação... vou rir muito ainda com estes textos.
    Risada é o que não falta contigo aqui no quarto ao lado....

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