sábado, 7 de agosto de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Carta para o Sr. Boliviano da rua XV.

Faz muito tempo que quero falar com o senhor. Aliás, um tanto quanto ansiosa, já o fiz sem a sua presença, soltando alguns nomes ao ar direcionados a ti.
Eu não sou sua fã, Sr. Boliviano, mas alguém que o escuta todos os dias. Sim: todas as manhãs, antes mesmo de lembrar que existo, meu corpo é invadido por suas músicas. O senhor sabe que há uma distância razoável entre invasão domiciliar e convite, não é mesmo? Pois bem.

O Sr. não acha que deveria aumentar o seu repertório, Sr. Boliviano? Acredito que “Titanic”, uma música castelhana que não sei o nome e “Hey Jude” é um número pequeno para se repetir dia e noite, faça chuva ou faça sol, sem pausas nos sagrados domingos. Mas, o Sr. deve pensar: as pessoas que passam na rua XV não são sempre as mesmas, logo, posso repetir o meu super repertório todos os dias, 980 vezes, que ninguém perceberá, certo?

Errado, Sr. boliviano. Existem criaturas que moram a uma distância possível de escutar sempre, todos os dias e todos os momentos suas insuportáveis, quer dizer, inseparáveis três músicas e sua abominável e fiel flautinha.


Por tamanha lavagem cerebral, meu corpo condicionou-se a esta sonoridade, e concluiu que:
Primeiro: compreendo perfeitamente o motivo do aluguel deste apartamento ser tão barato.
Segundo: O Sr, Senhor Boliviano, tem uma amada. Uma amada com o nome de Jude. Ela é castelhana. A Jude castelhana ignorou seu ninho de amor, seu fuego boliviano e fugiu em um barquinho.
E o senhor, Sr. Boliviano, rejeitado pela Jude, veio parar aqui, embaixo da minha janela, cantar as únicas coisas que lhe vem a mente e ao coração desesperado.

Sr. boliviano, realmente, quando sofremos de amor, fazemos cada coisa... mas estou aqui, para lembrá-lo que não deve ficar preso ao seu passado, pensar no seu futuro e no bem de toda a humanidade.

Eu imagino que o Sr. está ali, todos os dias, para arrecadar suas moedinhas e zarpar para o seu país de origem. Que, com certeza, é o que senhor deseja e todos que te rodeiam também querem! Com certeza sua castelhana Jude está lhe esperando. Ela deve ter se arrependido e está lá, na Boliviaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, esperando o senhor! Olha só! A alegria universal está perto de todos nós.

Mas, convenhamos, o Sr. precisa ir logo, já que está perdendo a noção de realidade. Não desistir de um objetivo é uma coisa. Agora, o que o senhor fez hoje não tem cabimento. Acabei de escutá-lo aqui, em pleno domingo do dia 11 de julho, competindo com o telão da copa do mundo. E hoje, caro Boliviano, caso não saiba, é dia da final da copa. Essas pessoas que ali estão, a uma distância de 300 metros do senhor, não estão tímidas e admirando-o, de longe. Elas estão ali, reunidas, para ver a final pelo telão. Que graças, acabará hoje também. E o senhor deveria respeitar isso e desligar sua caixinha de som e juntar-se à eles e não aumentar o volume, Sr. Boliviano. As pessoas não são surdas e caso o Sr. esteja cantando para Deus, quero lembrá-lo que ele também não é e já deve ter lhe escutado.

O Sr. está bem grandinho para perceber que nem sempre as pessoas querem escutar você. O senhor não pode achar que é o centro das atenções. Por exemplo, agora, o centro das atenções, na rua XV e no resto do mundo, é a final da copa. Entende que eu quero dizer senhor boliviano? Tem hora pra tudo.

Mas caro Sr boliviano sem noção. Se ainda não conseguiu reunir todas as moedinhas necessárias para encontrar sua amada, quero lhe sugerir uma estratégia fantástica.
Acredito que por mais que o público que passe pela XV mude todos os dias, quem viu o senhor aqui, já viu, quem não ouviu, perdeu a oportunidade. O senhor não pode ficar esperando um fã ricasso no mesmo lugar. Você e suas musiquinhas deveriam ir pra bem longe daqui. Vai que lá naquele longínquo lugar existam pessoas que não se importem de ouvi-lo todos os dias e encantem-se com seu playback desafinado? Que achem o máximo essas flautinhas repugnantes?

Meu medo, Sr boliviano, é que caso o senhor não saia desse lugar logo, as pessoas podem irritar-se, ficar agressivas, desesperadas e armar um plano maquiavélico pra nunca mais ter que escutá-lo. Existem pessoas que querem, as vezes, um pouco de silêncio no lar. Um pouco de paz. E que, para isso, não se responsabilizam pelas possíveis conseqüências que podem arcar para que este silêncio se estabeleça, não é mesmo?

O senhor deve pensar: que mal três musiquinhas podem oferecer?
Eu lhe respondo: A borboleta que bateu asas e provocou um tufão no outro canto do mundo também não sabia que seria a protagonista da teoria do caos. Mas eu estou aqui sendo sua amiga, e lhe avisando: Vá para longe, bem longe daqui, antes que seja tarde.

Até nunca mais, Sr Boliviano. Com todo o respeito, quando encontrar sua amada castelhana Jude, mande-a bem para o meio daquele lugar. E com licença, preciso escrever uma carta para o professor Galdino quarenta e cinco zero vinte um.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

31 de março

Curitiba. Essa tendência que se cria de tentar entrar na mesma freqüência dela. Frenética, acelerada. Duas horas de nada pra fazer entre os entres corridos e, ao invés de se preocupar com o amanhã, você se permite sentar no banco da praça e observar.
Eu e mais duas. Uma, de aniversário. Detalhe mais que significativo, já que pelo menos hoje, a gente tenta dar um jeitinho de deixar o dia mais colorido.

Devia ser umas duas horas da tarde, e nós ali, sentadas no banco da praça. Dia gostoso, nem sol de mais, nem de menos. Antes mesmo de pensar em focar em algo, nossos olhares já estavam fixados em dois meninos de 6,7 anos e uma garotinha, mais velha, com seus 8, 9. Os dois meninos nem aí pra ela, na gangorra, divertindo-se horrores. E a garotinha, tentando de todos os jeitos chamar a atenção deles: Jogava-se em cima da gangorra em que eles estavam, tentava tirar à força um dos dois de lá, saia correndo e ia brincar no escorregador com cara de “eu tenho um escorregador só pra mim, venham aqui roubar ele de mim”. E nada. E entre pausas e movimentos bruscos, ela tentava de tudo. Mas entregar o jogo e convidá-los pra brincar? Jamais.


Mal sabia que esse era só o começo de relações entre as várias que teria com o sexo oposto. E por mais que ela crescesse, as atitudes não mudariam muito não. Mas ela era forte e poderia suportar isso. Naquele joguinho de “não estou nem aí pra vocês dois”, ela, sem querer, acabou se convencendo que não precisava deles pra brincar. E foi pra outra gangorra, sozinha: Usava o peso do seu corpo pra andar sobre o brinquedo, equilibrando-se. Ali a menina ficou, concentradíssima, pesquisando a movimentação focada no fator peso em um espaço alternativo. Nem olhava mais para os lados. E não era ceninha não.

Talvez, por percepção masculina ou por infeliz coincidência, no momento em que ela estava realizada so-zi-nhaaaaaaaaa, os meninos foram até a gangorra da garotinha, imitar o que ela estava a fazer. E foi aí que ela viu que poderia ser feliz de verdade: O sorriso mais que sincero, aberto, largo, meio sem jeito, expondo o desejo guardadinho.Han, agora sim! Sua hiperatividade denunciava o entusiasmo de ter tão perto o que ela quis tanto.

E como se já não bastasse tamanha alegria, ela estava no comando da brincadeira. Eles a imitavam. Eles estavam ali, fazendo o que ELA tinha inventado. É, realmente, eles não saberão mais viver sem mim, sem a minha criatividade, minha genialidade, minha experiência na arte de brincar, ela pensava, obviamente. A garota, extasiada, sentia-se uma princesa: Já desenhava seu futuro, visualizava várias tardes felizes em outros parques, com aqueles dois. Han, como a vida é colorida!

E, em menos de três minutos, os meninos enjoaram da brincadeira e foram para o escorregador, sem titubear. E ela, em pausa, olhou desapontada para os dois afastando-se cada vez mais dela, que sequer olharam para trás.
A menina não viu outra saída a não ser sair correndo e parar no colo da sua mãe.

sábado, 1 de maio de 2010

Ctrl+C

Filho do fast food e do desespero.
Continua, Vai lá. Teu mérito maior é a velocidade. A velocidade com que troca de valores, de amigos, das coisas que diz que tanto precisa.
Basta um click para deletar seu amigo do peito. Basta uma ausência para você esquecê-lo. Adestrou teus neurônios a nada durar, nada criar raízes, deixar rastros. Teu lixo é imenso, e todos estão lá. Inclusive seus amores. Seus amores que duram a eternidade de uma fome matada.
Tudo que te rodeia tem que ser a tua cópia, o teu mesmo jeito imbecil de pensar e agir. Amigos que são amigos são iguais a você, é óbvio. Seu débil. Nunca discorda de nada e descarta todo dia um tudo diferente, porque, puta que pariu, as pessoas enjoam.
Tu não te importa com nada, apenas com teus perfis lotados de desconhecidos. E se um deles mudar o disco ou o discurso, você não os reconhece, nem lembra mais do nome.
Nunca arriscou nada, não lutou por ninguém, nem por você. Muda de desejo como quem troca as meias. Mas o plim-plim da TV anuncia a moda e você corre, desesperado, alucinado.
Quer sempre estar a frente, não sabe do quê. Morre de medo de descobrirem a verdade. De você descobrir a verdade. Que você não é um camaleão, que você não é o rei da adaptação, você é uma mentira, Maria vai com as outras.
Banaliza tudo, ri de tudo. Ridículo, fútil, descartável. Sua retórica sofista acha que engana, cheia de ornamentos inúteis.

Cheio de ruga na cara, e nenhuma tem uma história pra contar.

domingo, 11 de abril de 2010

Tem gente...

Tem gente que tem um cachorro chamado Tchó.
Tem gente que fez promessa de ficar um ano sem comer sorvete.
Tem gente que adora falar de peido e não peida nunca na frente dos outros.
Tem gente que rara a rínrua ro érre e qualquer movimento em falso é motivo de aversionamento.
Tem gente que é vegetariano.
Tem gente que já teve um galo de estimação.
Tem gente que enquanto dorme fala,senta, conversa e se veste.
Tem gente que odeia sentir a textura do tomate e vive num mundo que se fala japona.
Tem gente que é brita e tem pavor de bichos voadores.
Tem gente que fala garfo e você tem que entender que ela quis dizer colher.
Tem gente que faz faculdade de comunicação e é monossilábico .
Tem gente que não sabe o que é maior: o olho ou a própria kinesfera.
Tem gente que trocou o all star pelo salto e o róque pelo sertanejo.
Tem gente que considera a Bíblia da vida a revista Veja.
Tem gente que imita o Garra como ninguém e não dorme sem o barulho do ventilador.
Tem gente que ainda vai casar com o Elvis.
Tem gente que tem uma vida tão bizarra que se contar ninguém acredita.
Tem gente que é a mais delicada possível na profissão e a mais grossa possível com as amigas.
Tem gente que não suporta quem faz ecaaaaaa na mesa, já que isso é falta de educação.
Tem gente que tem o braço mais musculoso da vida e tem pavor de ratos.
Tem gente que troca de religião todos os meses e adora chorar em acampamentos.
Tem gente que acha que os dentes se mexem e, com o auxílio dos dedos, eles voltam pro lugar.
Tem gente que não sabe jogar sinuca e ganha todos os jogos.
Tem gente que mandava cartas nas férias.
Tem gente que se mija de rir com o filme dos pingüins imbecis que não lembro o nome.
Tem gente que fuma chá de camomila.
Tem gente que leu o livro da topeirinha e encontrou a razão de viver.
Tem gente que leva giz de cera e caderno pra balada.

-*---*---*---*-



Você é uma dessas gentes?

Então saiba que você e suas esquisitisses moram no meu coração!

\o/

domingo, 28 de março de 2010

Dois ou ummm?

VERSÃO UM
Sexta-feira. Aquele dia que você acorda apodrecida, com o peso da semana nas costas. E pra quem trabalha com dança, o peso encalacra no corpo todo. Você tem reunião às dez da manhã. E mesmo sendo às dez da manhã, não conseguirá chegar no horário, aiaiai. Saio correndo desesperada. É, acho que vou chegar atrasada. Não queria ir de bike, minha perna dói, mas diminuir metade do tempo pra chegar ao trampo é o que preciso hoje.

No meio do caminho as senhoras idosas tem atração quase que instantânea pela minha bicicleta e fazem questão de se enfiar na frente dela. Não sei qual é a função da campainha da bike, já que quando você a aciona, ou as pessoas tendem a ignorá-la ou olham pra todos os lugares, menos na direção que precisava. O SAI DA FRENTEEE continua sendo a opção mais funcional mesmo.Chego esbaforida, cuspindo o café da manhã, suada e ainda com traços gripais.
Ué, cadê o povo? “A reunião foi adiada para às 10:30, foi enviado um e-mail avisando”.
.
(pausa)
.
Que óóóóóóótimo! Poderia ter me vestido, tomado café, escutado os bolivianos com mais calma.

Fim da reunião, hora do almoço. Morrendo de fome, lembro que não trouxe dinheiro para o rango. Conto as moedas. Preciso de seis reais pra comer no buffe livre da frente, porque eu não vou almoçar lanche. Eu preciso de carne, carboidrato, saladinhas. Conto 27 vezes as moedas, e, não adianta: eu tenho cinco reais e noventa centavos. Será que eu peço desconto? Será que coloco as 2 moedas de 1 centavo junto com as outras, correndo o risco delas se passarem por 2 moedas de cinco centavos, e até o cara do caixa perceber eu já saí correndo? Será que eu peço 10 centavos emprestado pra qualquer desconhecido?

Han, esquece.Existe o RU,e ele irá me salvar. Carne, saladinha,carboidratos. Deu pra tomar um suco, comer dois bombons e ainda sobrou grana. Mas o dia estava contra mim, e o único pedaço de carne que eles ofereceram me recordou disso. Ele fez questão de cair no chão. E no trajeto encontrar minha calça. Branca.

Depois do almoço sem carne, resolvi o que faltava fazer no trabalho, hora de partir. De tão concentrada que estava, nem percebi que lá fora chovia. E minha bike, me esperando na chuva (entrei atrasada, correndo, lembram? Preferi deixá-la lá, a passar pelo cadastro das bicicletas e dizer qual era meu nome, que não era alunaaaa, que era professora, que dia a bike nasceu, que signo ela tinha..). Ótimo. Bike + chuva + calça branca + gripe de 15 dias é a combinação mais perfeita para o início do meu fim de semana.



VERSÃO DOIS
Sexta-feira. Oba, acabou a semana!Ainda bem que tenho um emprego que paga todas as minhas contas e ainda por cima me ajuda a curtir o fim de semana. Nem preciso dar aula hoje, só tenho uma reunião e resolver probleminhas, sentada na cadeira. Meu corpo dolorido agradece.

A reunião é às dez horas, mas mesmo assim chegarei atrasada. Felizmente posso ir de bike, aproveitar as regras dos pedestres, dos ônibus, dos carros e chegar mais rápido que qualquer meio de transporte. Sorte que no meio do caminho minha descoordenação cedeu lugar para uma agilidade instintiva do além, e por pouco não atropelo uma senhora idosa.

Chego na reunião, e ué, cadê o povo? “ A reunião foi adiada pras dez e meia, foi mandado um email avisando”.
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(pausa)
.
Ufa, que ótimo!Hoje só pode ser o meu dia. Assim estou mais que pontual para a reunião e já aproveito pra adiantar outras questões antes dela.

Reunião finalizada, hora do almoço. Morrendo de fome, recordo que não trouxe dinheiro para o rango! Mas sou salva por moedas perdidas em minha mochila e pelo RU,oba! Nem acreditei quando vi que além de almoçar comida, ainda sobraria grana pra tomar um suco e comer um chocolate. Um não, dois! O almoço estava uma delícia, tirando o fato que a única carne que havia em meu prato resolveu cair no chão, e no trajeto encontrar minha calça. Branca. Ainda bem que não preciso dar aula e saracotiar minha perna pra cima e pra baixo, mostrando pra todos: “olha gente, a profe não sabe comer sem se sujaaar”. Hoje é dia de trabalhar sentadinha, na minha sala, sem ninguém, de frente para o PC. Assim ninguém verá minha obra prima na calça que era branca.

Serviço pronto, hora de partir. Ué, que barulho é esse? Chuva! E eu aqui, de calça branca, gripada e de bike. Bom, não tenho compromisso depois e posso ter calma pra esperar a chuva passar. Enquanto isso,vou organizar meu fim de semana!


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Um dia qualquer, sem acontecimentos estrondosos e sequer significantes. Mas independente do que acontece no seu dia-a-dia, dos problemas grandões ou sutis que resolvem visitar ele, como você os encara?

Sempre há pelo menos duas possibilidades de ver os fatos. Aquela visão que vai te deixar mais mal humorado ainda, odiando o mundo e o complô dele contra você, e a outra, menos dramática, um pouco mais otimista, que dá espaço pra perceber as coisas boas da vida.
Quem sou eu pra julgar como você vê ou deixa de ver as coisas, mas quem sabe, o que às vezes a gente precisa não é nem mudar as coisas, mas sim a maneira que olhamos para elas. Já dizia a diva imperiosa, Clarice Lispector.

Tentar respirar fundo e ver de fora a situação, as vezes funciona. Palavras positivas atraem energias positivas, e o contrário, só atrairá energia negativa. Então, se não podemos ter controle de tudo, pelo menos podemos escolher de que jeito vamos enxergar esse tudo.

Bom fim de fim de semana pra vocês.

sexta-feira, 26 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Os Pedros

Plantei feijões. É,feijões.
Aqueles que você e sua irmã devem ter plantado na 3º ou 4º série. Plantei igualzinho. No pote de plástico com algodão e terra. Minha irmã que disse que ia terra. Eu não lembrava.Pra mim, feijões eram mágicos e bastava apenas água, luz e algodão. Mas ela disse que ia terra, ainda bem. Porque eu sou traumatizada com essas coisas de plantação.

Tudo começou quando eu usava saia pregada e não me preocupava com depilação. Eu deveria ter menos de uma década de vida, quando num bendito dia da árvore a tia, (na época profe era tia e não me perguntem o nome dela, pois isso foi há muito, muito tempo)... continuando!

Num bendito dia da árvore, a tia deu pra cada um de nós, adoráveis alunos, uma muda de árvore para plantar em casa. Eu e meu pai fomos lá pegar adubinho e terrinha para plantar. Não recordo que merda que aconteceu, ela morreu. Han, acontece,né?

Chego na escola e meus queridos colegas vieram me contar com a maior naturalidade do mundo que sim, suas mudinhas estavam crescendo. A minha tinha desaparecido, não sei como, não sei aonde. Quem sabe alguém a seqüestrou, mas na época eu era realista mesmo e conclui que minha muda devia estar estragada e por isso ela não cresceu.
Pois bem. Pai compra outra mudinha, porque a tia disse que todos na vida tinham que plantar uma árvore e bléblé. Dessa vez encharquei a nova muda (redundância o caralho, nova porque era a outra muda, ok?) de tudo possível, pra vir forte, já que a outra era fraquinha e veio estragada.Então, essa daí seria hiper-mega-multi-vitaminada. E seria assim pois a coitada estava com a desvantagem de tempo perdido pela muda estragada e deveria não apenas igualar-se as dos meus colegas-inimigos, mas passar na frente, só pra euzinha aqui ficar com cara de “ coisa-mais-normal-do-mundo-minha-planta-ser-3-vezes-mais-eficiente”.
Então, encharquei de tudo que foi possível minha nova muda, e obviamente, morreu afogada a desgraçada. Na época eu nem imaginava que isso seria apenas o começo.

Meu vô, han meu avô querido que agora deve estar no céu jogando dominó e bebendo pinga, me deu uma pitangueira. Essa daria certo, sem dúvida. Muda do meu avô, que modéstia parte sabia sim, como só avôs sabem, plantar. Mas como todos os avôs, ele também sabia muito bem sacanear seus netinhos.Adivinhem? Depois de anos a pitangueira cresceu razoavelmente. Mas pitanga que é bom? Nada! Nem um brotinho, nem verde, nem madura, nenhuma!!! Infértil, totalmente broxa a desgraçada. Tudo bem, eu sou mais forte que isso, suportei. Mas ainda olho pra bendita pitangueira com esperanças de que algo que não seja folha nasça dela.

Eis que, agora, sem saias pregadas, já madura e forte o suficiente para ter superado meu passado, estava no mercado com minha mãe, na sessão de verduras, quando me deparei com vários pacotinhos de sementes de flores. Algo instintivo e ao mesmo tempo vingativo me fez pegar dois deles. Fiz tudo direito: deixei as sementinhas 24 horas no frízer (como dizia a embalagem),fui no canteiro da janela do meu quarto com a enxada e afofei a terra (como dizia a embalagem), dei pouca água (como dizia a embalagem), joguei as sementes com distância de 20 cm entre elas(sim, como dizia a embalagem) e conversei muito com elas (como dizia o Chico Bento) e, finalmente, admirei minha obra, com olhos de quem faz macumba pra uma florzinha querida nascer. Uma gente, apenas uma já seria minha glória, pois temi que meu catastrófico passado de plantadora voltasse a tona.

Na mesma semana, conversando com o pai,me sentindo uma verdadeira sábia do plantio, contei minhas proezas de plantadora. Ele, com aquela cara de pai e voz de pai me perguntou quantos cm na vertical eu plantara as benditas florzinhas. Eu, me achando por informar tal dado a ele, disse que no máximo 2 cm.
Aqueles segundos de silêncio mórbido e drástico que antecede a resposta, temi o que ele viria a me dizer. E ele, com sabedoria de pai e voz de pai me avisa que pombos devem ter comido tudo. Numa fração de segundos recordei que depois de uns 3, 4 dias do plantio uma ninhada gigantesca de pombos vinha me acordar 5, 6 e poco da manhã na minha janela. Uma barulheira do caralho, e pia daqui, pia de lá. Eu havia chegado a pensar,como pensa alguém que é acordado neste horário madrugal: “ devem estar no cio, brincando de esconde-esconde ou coisa parecida.”

Vocês imaginam a raiva que fiquei de pombos depois disso. De pombos, da minha ingenuidade de achar que pombos gostavam da minha janela, da cretina embalagem que não me avisou da profundidade que deveria plantar a porra das flores, e de todo universo que rodeia esse bendito mundo de plantação. Gente, vocês acreditam que não se salvou uma única florzinha? E não era rosa ou aquelas flores espetaculares! Plantei aquelas florzinhas ralés, que brotam em qualquer terreno baldio cheio de lixo e terra seca!! Sim, meu canteiro não tem nem sinal de broto de flor. Se é que isso existe.

E assim, tomada pela raiva, pelo desprezo da mãe natureza, caluniada por plantas, por árvores broxantes, mudas que desaparecem, que se afogam,que nem viram broto, resolvi tomar a única decisão que restava: Plantar feijões em potes de plástico.

Sim. O ato ocorreu quarta-feira passada (exatamente uma semana e um dia atrás). E vocês não imaginam. Os feijões viraram raízes. E viraram caule, folha, com uma rapidez tamanha, mas tanta, mas tanta, tanta, que até o João Pé de Feijão ficaria a-pa-vo-ra-do. Sim, porque agora, as plantas poderiam se vingar e fazer o contrário!! Poderiam fazer crescer tanto este feijão a ponto de temê-los. E conseguiram. Pensei em colocá-los pertinho da minha cama, ao dormir. Mas só por precaução, os coloquei bem longe, numa distância impossível deles crescerem e entrarem pela minha guela.

E hoje, sou uma moça (sim, cresci) feliz, porque feijões consegui plantar. Existe uma técnica toda especial, apurada, que não contarei aqui. Se quiser saber, vá comprar um livro sobre como se planta feijões. Não meus queridos, eu não precisei comprar. Por anos de luta, adquiri toda experiência necessária para conseguir tal mérito. Mas preciso declarar que não sei o que fazer com os Pedros (nome dos meus feijões), que em uma semana e um dia não param de crescer.


------texto de 2004.----------

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Introdução

Qual é a criatura, que, em sã consciência, começa a escrever um texto pela introdução? A introdução, teoricamente, está no início dos textos, como o próprio nome deixa claro: introdução.

Sabe aquela espiadinha pela janela do vizinho? É ela. Dependendo da introdução, você já sabe se será levado para um lugar pomposo, anunciado por violinos e trombetas, com reis vestidos de veludo, perucas volumosas, mesóclises e tiques nervosos. Saberá se o texto entrará leve e ritmado, como um balançar na rede, no fim de uma tarde de verão. Ou se ele precisará ser apreciado vagarosamente, como uma boa taça de vinho.

Se é óbvio que é a tarefa da introdução anunciar o rumo da história (independente de se resolver dar meia-volta e tomar sentido oposto), dificilmente começa-se um texto redigindo ela, a Dama do Início, a chamadora oficial de atenção, aquela que não deve e não teme a ninguém: A idolatrada salve salve, a Introdução.

Só depois, com os vilões bem alinhados e penteados, com os cenários demarcados, cheiros e fedores descritos, suspenses e clímax pautados, é que, finalmente, respira-se, toma-se e um café, e sim, senta-se para redigir a preferida. Se há quem diga que os começos são difíceis, eu lhes digo que são os melhores. Eles deveriam ser sempre apaixonantes, te prender sutilmente ou descaradamente mesmo, como qualquer começo de qualquer coisa.

Agora, se nas primeiras linhas dos seus escritos não conseguir convencer o leitor
de que ele precisa vitalmente passear pelas próximas páginas,meus pêsames.Não restam muitas chances de que ele prosseguirá a leitura (isto não cabe aos pais e melhores amigos do escritor, nem para leituras obrigatórias, que ignorarão a desleixada introdução, e seguirão fiéis, avante sobre o texto empedregulhado e sem sal).

Mas o mundo está aí pegando fogo, o Haiti sob um caos completo, São Paulo debaixo d’água, a Chapecoense decepcionando os torcedores, e eu aqui, falando sobre introduções textuais?

Tá bom,chega de enrolação: isto tudo é pra dizer que não iniciarei este blog pelo começo, pela bendita introdução. E não adianta insistir. Escrevê-la todo florida e colorida, cheia de expectativas, como todo início de ano que se preze, com palavras positivas, repletas de vitalidade, entulhando-a de propagandas enganosas, apelando por mensagens subliminares e palavras de auto-ajuda? Não, muito obrigada.

Não há possibilidades de começar este blog pela introdução.
Não sei o que acontecerá com ele, não faço a menor idéia, e nem quero saber. É claro, e seria hipócrita se deixasse aqui registrado que não há expectativas relacionadas à este casebre virtual de meus futuros escritos. Mas prefiro falar do começo depois. Por acaso alguém aqui lembra do primeiro dia de aula, em que todos coleguinhas são obrigados a falar sobre sua vida, onde nasceram, quantos anos tem, por quais razões escolheram tal curso? Lembram, óbvio. Mas eu duvido que alguém prestou atenção nas histórias clichês dos amiguinhos. Só depois de algumas aulas, de sair por aí com eles pelos botecos da vida, é que faz algum sentido e se mostra interessante saber as futilidades da vida de cada um.
Então leitores, por enquanto não abrirei a porta do carro e nem pedirei para sentarem-se ao meu lado, Não deixarei que espiem pendurados no parapeito da janela e muito menos não os conduzirei pela mão para lugar algum. Não posso dizer que cores e cheiros este blog terá. Como uma boa libriana iluminada pelo ascendente também em Libra, eu ainda não decidi.

Para deixar bem claro: Caros leitores, ainda não há motivos para necessitarem ler isto daqui. Não há motivos para ansiedade na longa espera pelo próximo tema a ser definido, para permanecerem sedentos pelo próximo texto a ser delineado e anunciando como manga na feira.

A introdução virá, assim que souber do que se trata e pra que serve esta coisa virtual. E se inícios me viciam, não sou lá muito chegada em finais. Agora, acho que um ponto final resolve.