Qual é a criatura, que, em sã consciência, começa a escrever um texto pela introdução? A introdução, teoricamente, está no início dos textos, como o próprio nome deixa claro: introdução.
Sabe aquela espiadinha pela janela do vizinho? É ela. Dependendo da introdução, você já sabe se será levado para um lugar pomposo, anunciado por violinos e trombetas, com reis vestidos de veludo, perucas volumosas, mesóclises e tiques nervosos. Saberá se o texto entrará leve e ritmado, como um balançar na rede, no fim de uma tarde de verão. Ou se ele precisará ser apreciado vagarosamente, como uma boa taça de vinho.
Se é óbvio que é a tarefa da introdução anunciar o rumo da história (independente de se resolver dar meia-volta e tomar sentido oposto), dificilmente começa-se um texto redigindo ela, a Dama do Início, a chamadora oficial de atenção, aquela que não deve e não teme a ninguém: A idolatrada salve salve, a Introdução.
Só depois, com os vilões bem alinhados e penteados, com os cenários demarcados, cheiros e fedores descritos, suspenses e clímax pautados, é que, finalmente, respira-se, toma-se e um café, e sim, senta-se para redigir a preferida. Se há quem diga que os começos são difíceis, eu lhes digo que são os melhores. Eles deveriam ser sempre apaixonantes, te prender sutilmente ou descaradamente mesmo, como qualquer começo de qualquer coisa.
Agora, se nas primeiras linhas dos seus escritos não conseguir convencer o leitor
de que ele precisa vitalmente passear pelas próximas páginas,meus pêsames.Não restam muitas chances de que ele prosseguirá a leitura (isto não cabe aos pais e melhores amigos do escritor, nem para leituras obrigatórias, que ignorarão a desleixada introdução, e seguirão fiéis, avante sobre o texto empedregulhado e sem sal).
Mas o mundo está aí pegando fogo, o Haiti sob um caos completo, São Paulo debaixo d’água, a Chapecoense decepcionando os torcedores, e eu aqui, falando sobre introduções textuais?
Tá bom,chega de enrolação: isto tudo é pra dizer que não iniciarei este blog pelo começo, pela bendita introdução. E não adianta insistir. Escrevê-la todo florida e colorida, cheia de expectativas, como todo início de ano que se preze, com palavras positivas, repletas de vitalidade, entulhando-a de propagandas enganosas, apelando por mensagens subliminares e palavras de auto-ajuda? Não, muito obrigada.
Não há possibilidades de começar este blog pela introdução.
Não sei o que acontecerá com ele, não faço a menor idéia, e nem quero saber. É claro, e seria hipócrita se deixasse aqui registrado que não há expectativas relacionadas à este casebre virtual de meus futuros escritos. Mas prefiro falar do começo depois. Por acaso alguém aqui lembra do primeiro dia de aula, em que todos coleguinhas são obrigados a falar sobre sua vida, onde nasceram, quantos anos tem, por quais razões escolheram tal curso? Lembram, óbvio. Mas eu duvido que alguém prestou atenção nas histórias clichês dos amiguinhos. Só depois de algumas aulas, de sair por aí com eles pelos botecos da vida, é que faz algum sentido e se mostra interessante saber as futilidades da vida de cada um.
Então leitores, por enquanto não abrirei a porta do carro e nem pedirei para sentarem-se ao meu lado, Não deixarei que espiem pendurados no parapeito da janela e muito menos não os conduzirei pela mão para lugar algum. Não posso dizer que cores e cheiros este blog terá. Como uma boa libriana iluminada pelo ascendente também em Libra, eu ainda não decidi.
Para deixar bem claro: Caros leitores, ainda não há motivos para necessitarem ler isto daqui. Não há motivos para ansiedade na longa espera pelo próximo tema a ser definido, para permanecerem sedentos pelo próximo texto a ser delineado e anunciando como manga na feira.
A introdução virá, assim que souber do que se trata e pra que serve esta coisa virtual. E se inícios me viciam, não sou lá muito chegada em finais. Agora, acho que um ponto final resolve.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
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