domingo, 28 de março de 2010

Dois ou ummm?

VERSÃO UM
Sexta-feira. Aquele dia que você acorda apodrecida, com o peso da semana nas costas. E pra quem trabalha com dança, o peso encalacra no corpo todo. Você tem reunião às dez da manhã. E mesmo sendo às dez da manhã, não conseguirá chegar no horário, aiaiai. Saio correndo desesperada. É, acho que vou chegar atrasada. Não queria ir de bike, minha perna dói, mas diminuir metade do tempo pra chegar ao trampo é o que preciso hoje.

No meio do caminho as senhoras idosas tem atração quase que instantânea pela minha bicicleta e fazem questão de se enfiar na frente dela. Não sei qual é a função da campainha da bike, já que quando você a aciona, ou as pessoas tendem a ignorá-la ou olham pra todos os lugares, menos na direção que precisava. O SAI DA FRENTEEE continua sendo a opção mais funcional mesmo.Chego esbaforida, cuspindo o café da manhã, suada e ainda com traços gripais.
Ué, cadê o povo? “A reunião foi adiada para às 10:30, foi enviado um e-mail avisando”.
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(pausa)
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Que óóóóóóótimo! Poderia ter me vestido, tomado café, escutado os bolivianos com mais calma.

Fim da reunião, hora do almoço. Morrendo de fome, lembro que não trouxe dinheiro para o rango. Conto as moedas. Preciso de seis reais pra comer no buffe livre da frente, porque eu não vou almoçar lanche. Eu preciso de carne, carboidrato, saladinhas. Conto 27 vezes as moedas, e, não adianta: eu tenho cinco reais e noventa centavos. Será que eu peço desconto? Será que coloco as 2 moedas de 1 centavo junto com as outras, correndo o risco delas se passarem por 2 moedas de cinco centavos, e até o cara do caixa perceber eu já saí correndo? Será que eu peço 10 centavos emprestado pra qualquer desconhecido?

Han, esquece.Existe o RU,e ele irá me salvar. Carne, saladinha,carboidratos. Deu pra tomar um suco, comer dois bombons e ainda sobrou grana. Mas o dia estava contra mim, e o único pedaço de carne que eles ofereceram me recordou disso. Ele fez questão de cair no chão. E no trajeto encontrar minha calça. Branca.

Depois do almoço sem carne, resolvi o que faltava fazer no trabalho, hora de partir. De tão concentrada que estava, nem percebi que lá fora chovia. E minha bike, me esperando na chuva (entrei atrasada, correndo, lembram? Preferi deixá-la lá, a passar pelo cadastro das bicicletas e dizer qual era meu nome, que não era alunaaaa, que era professora, que dia a bike nasceu, que signo ela tinha..). Ótimo. Bike + chuva + calça branca + gripe de 15 dias é a combinação mais perfeita para o início do meu fim de semana.



VERSÃO DOIS
Sexta-feira. Oba, acabou a semana!Ainda bem que tenho um emprego que paga todas as minhas contas e ainda por cima me ajuda a curtir o fim de semana. Nem preciso dar aula hoje, só tenho uma reunião e resolver probleminhas, sentada na cadeira. Meu corpo dolorido agradece.

A reunião é às dez horas, mas mesmo assim chegarei atrasada. Felizmente posso ir de bike, aproveitar as regras dos pedestres, dos ônibus, dos carros e chegar mais rápido que qualquer meio de transporte. Sorte que no meio do caminho minha descoordenação cedeu lugar para uma agilidade instintiva do além, e por pouco não atropelo uma senhora idosa.

Chego na reunião, e ué, cadê o povo? “ A reunião foi adiada pras dez e meia, foi mandado um email avisando”.
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(pausa)
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Ufa, que ótimo!Hoje só pode ser o meu dia. Assim estou mais que pontual para a reunião e já aproveito pra adiantar outras questões antes dela.

Reunião finalizada, hora do almoço. Morrendo de fome, recordo que não trouxe dinheiro para o rango! Mas sou salva por moedas perdidas em minha mochila e pelo RU,oba! Nem acreditei quando vi que além de almoçar comida, ainda sobraria grana pra tomar um suco e comer um chocolate. Um não, dois! O almoço estava uma delícia, tirando o fato que a única carne que havia em meu prato resolveu cair no chão, e no trajeto encontrar minha calça. Branca. Ainda bem que não preciso dar aula e saracotiar minha perna pra cima e pra baixo, mostrando pra todos: “olha gente, a profe não sabe comer sem se sujaaar”. Hoje é dia de trabalhar sentadinha, na minha sala, sem ninguém, de frente para o PC. Assim ninguém verá minha obra prima na calça que era branca.

Serviço pronto, hora de partir. Ué, que barulho é esse? Chuva! E eu aqui, de calça branca, gripada e de bike. Bom, não tenho compromisso depois e posso ter calma pra esperar a chuva passar. Enquanto isso,vou organizar meu fim de semana!


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Um dia qualquer, sem acontecimentos estrondosos e sequer significantes. Mas independente do que acontece no seu dia-a-dia, dos problemas grandões ou sutis que resolvem visitar ele, como você os encara?

Sempre há pelo menos duas possibilidades de ver os fatos. Aquela visão que vai te deixar mais mal humorado ainda, odiando o mundo e o complô dele contra você, e a outra, menos dramática, um pouco mais otimista, que dá espaço pra perceber as coisas boas da vida.
Quem sou eu pra julgar como você vê ou deixa de ver as coisas, mas quem sabe, o que às vezes a gente precisa não é nem mudar as coisas, mas sim a maneira que olhamos para elas. Já dizia a diva imperiosa, Clarice Lispector.

Tentar respirar fundo e ver de fora a situação, as vezes funciona. Palavras positivas atraem energias positivas, e o contrário, só atrairá energia negativa. Então, se não podemos ter controle de tudo, pelo menos podemos escolher de que jeito vamos enxergar esse tudo.

Bom fim de fim de semana pra vocês.

sexta-feira, 26 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Os Pedros

Plantei feijões. É,feijões.
Aqueles que você e sua irmã devem ter plantado na 3º ou 4º série. Plantei igualzinho. No pote de plástico com algodão e terra. Minha irmã que disse que ia terra. Eu não lembrava.Pra mim, feijões eram mágicos e bastava apenas água, luz e algodão. Mas ela disse que ia terra, ainda bem. Porque eu sou traumatizada com essas coisas de plantação.

Tudo começou quando eu usava saia pregada e não me preocupava com depilação. Eu deveria ter menos de uma década de vida, quando num bendito dia da árvore a tia, (na época profe era tia e não me perguntem o nome dela, pois isso foi há muito, muito tempo)... continuando!

Num bendito dia da árvore, a tia deu pra cada um de nós, adoráveis alunos, uma muda de árvore para plantar em casa. Eu e meu pai fomos lá pegar adubinho e terrinha para plantar. Não recordo que merda que aconteceu, ela morreu. Han, acontece,né?

Chego na escola e meus queridos colegas vieram me contar com a maior naturalidade do mundo que sim, suas mudinhas estavam crescendo. A minha tinha desaparecido, não sei como, não sei aonde. Quem sabe alguém a seqüestrou, mas na época eu era realista mesmo e conclui que minha muda devia estar estragada e por isso ela não cresceu.
Pois bem. Pai compra outra mudinha, porque a tia disse que todos na vida tinham que plantar uma árvore e bléblé. Dessa vez encharquei a nova muda (redundância o caralho, nova porque era a outra muda, ok?) de tudo possível, pra vir forte, já que a outra era fraquinha e veio estragada.Então, essa daí seria hiper-mega-multi-vitaminada. E seria assim pois a coitada estava com a desvantagem de tempo perdido pela muda estragada e deveria não apenas igualar-se as dos meus colegas-inimigos, mas passar na frente, só pra euzinha aqui ficar com cara de “ coisa-mais-normal-do-mundo-minha-planta-ser-3-vezes-mais-eficiente”.
Então, encharquei de tudo que foi possível minha nova muda, e obviamente, morreu afogada a desgraçada. Na época eu nem imaginava que isso seria apenas o começo.

Meu vô, han meu avô querido que agora deve estar no céu jogando dominó e bebendo pinga, me deu uma pitangueira. Essa daria certo, sem dúvida. Muda do meu avô, que modéstia parte sabia sim, como só avôs sabem, plantar. Mas como todos os avôs, ele também sabia muito bem sacanear seus netinhos.Adivinhem? Depois de anos a pitangueira cresceu razoavelmente. Mas pitanga que é bom? Nada! Nem um brotinho, nem verde, nem madura, nenhuma!!! Infértil, totalmente broxa a desgraçada. Tudo bem, eu sou mais forte que isso, suportei. Mas ainda olho pra bendita pitangueira com esperanças de que algo que não seja folha nasça dela.

Eis que, agora, sem saias pregadas, já madura e forte o suficiente para ter superado meu passado, estava no mercado com minha mãe, na sessão de verduras, quando me deparei com vários pacotinhos de sementes de flores. Algo instintivo e ao mesmo tempo vingativo me fez pegar dois deles. Fiz tudo direito: deixei as sementinhas 24 horas no frízer (como dizia a embalagem),fui no canteiro da janela do meu quarto com a enxada e afofei a terra (como dizia a embalagem), dei pouca água (como dizia a embalagem), joguei as sementes com distância de 20 cm entre elas(sim, como dizia a embalagem) e conversei muito com elas (como dizia o Chico Bento) e, finalmente, admirei minha obra, com olhos de quem faz macumba pra uma florzinha querida nascer. Uma gente, apenas uma já seria minha glória, pois temi que meu catastrófico passado de plantadora voltasse a tona.

Na mesma semana, conversando com o pai,me sentindo uma verdadeira sábia do plantio, contei minhas proezas de plantadora. Ele, com aquela cara de pai e voz de pai me perguntou quantos cm na vertical eu plantara as benditas florzinhas. Eu, me achando por informar tal dado a ele, disse que no máximo 2 cm.
Aqueles segundos de silêncio mórbido e drástico que antecede a resposta, temi o que ele viria a me dizer. E ele, com sabedoria de pai e voz de pai me avisa que pombos devem ter comido tudo. Numa fração de segundos recordei que depois de uns 3, 4 dias do plantio uma ninhada gigantesca de pombos vinha me acordar 5, 6 e poco da manhã na minha janela. Uma barulheira do caralho, e pia daqui, pia de lá. Eu havia chegado a pensar,como pensa alguém que é acordado neste horário madrugal: “ devem estar no cio, brincando de esconde-esconde ou coisa parecida.”

Vocês imaginam a raiva que fiquei de pombos depois disso. De pombos, da minha ingenuidade de achar que pombos gostavam da minha janela, da cretina embalagem que não me avisou da profundidade que deveria plantar a porra das flores, e de todo universo que rodeia esse bendito mundo de plantação. Gente, vocês acreditam que não se salvou uma única florzinha? E não era rosa ou aquelas flores espetaculares! Plantei aquelas florzinhas ralés, que brotam em qualquer terreno baldio cheio de lixo e terra seca!! Sim, meu canteiro não tem nem sinal de broto de flor. Se é que isso existe.

E assim, tomada pela raiva, pelo desprezo da mãe natureza, caluniada por plantas, por árvores broxantes, mudas que desaparecem, que se afogam,que nem viram broto, resolvi tomar a única decisão que restava: Plantar feijões em potes de plástico.

Sim. O ato ocorreu quarta-feira passada (exatamente uma semana e um dia atrás). E vocês não imaginam. Os feijões viraram raízes. E viraram caule, folha, com uma rapidez tamanha, mas tanta, mas tanta, tanta, que até o João Pé de Feijão ficaria a-pa-vo-ra-do. Sim, porque agora, as plantas poderiam se vingar e fazer o contrário!! Poderiam fazer crescer tanto este feijão a ponto de temê-los. E conseguiram. Pensei em colocá-los pertinho da minha cama, ao dormir. Mas só por precaução, os coloquei bem longe, numa distância impossível deles crescerem e entrarem pela minha guela.

E hoje, sou uma moça (sim, cresci) feliz, porque feijões consegui plantar. Existe uma técnica toda especial, apurada, que não contarei aqui. Se quiser saber, vá comprar um livro sobre como se planta feijões. Não meus queridos, eu não precisei comprar. Por anos de luta, adquiri toda experiência necessária para conseguir tal mérito. Mas preciso declarar que não sei o que fazer com os Pedros (nome dos meus feijões), que em uma semana e um dia não param de crescer.


------texto de 2004.----------