terça-feira, 13 de julho de 2010

Carta para o Sr. Boliviano da rua XV.

Faz muito tempo que quero falar com o senhor. Aliás, um tanto quanto ansiosa, já o fiz sem a sua presença, soltando alguns nomes ao ar direcionados a ti.
Eu não sou sua fã, Sr. Boliviano, mas alguém que o escuta todos os dias. Sim: todas as manhãs, antes mesmo de lembrar que existo, meu corpo é invadido por suas músicas. O senhor sabe que há uma distância razoável entre invasão domiciliar e convite, não é mesmo? Pois bem.

O Sr. não acha que deveria aumentar o seu repertório, Sr. Boliviano? Acredito que “Titanic”, uma música castelhana que não sei o nome e “Hey Jude” é um número pequeno para se repetir dia e noite, faça chuva ou faça sol, sem pausas nos sagrados domingos. Mas, o Sr. deve pensar: as pessoas que passam na rua XV não são sempre as mesmas, logo, posso repetir o meu super repertório todos os dias, 980 vezes, que ninguém perceberá, certo?

Errado, Sr. boliviano. Existem criaturas que moram a uma distância possível de escutar sempre, todos os dias e todos os momentos suas insuportáveis, quer dizer, inseparáveis três músicas e sua abominável e fiel flautinha.


Por tamanha lavagem cerebral, meu corpo condicionou-se a esta sonoridade, e concluiu que:
Primeiro: compreendo perfeitamente o motivo do aluguel deste apartamento ser tão barato.
Segundo: O Sr, Senhor Boliviano, tem uma amada. Uma amada com o nome de Jude. Ela é castelhana. A Jude castelhana ignorou seu ninho de amor, seu fuego boliviano e fugiu em um barquinho.
E o senhor, Sr. Boliviano, rejeitado pela Jude, veio parar aqui, embaixo da minha janela, cantar as únicas coisas que lhe vem a mente e ao coração desesperado.

Sr. boliviano, realmente, quando sofremos de amor, fazemos cada coisa... mas estou aqui, para lembrá-lo que não deve ficar preso ao seu passado, pensar no seu futuro e no bem de toda a humanidade.

Eu imagino que o Sr. está ali, todos os dias, para arrecadar suas moedinhas e zarpar para o seu país de origem. Que, com certeza, é o que senhor deseja e todos que te rodeiam também querem! Com certeza sua castelhana Jude está lhe esperando. Ela deve ter se arrependido e está lá, na Boliviaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, esperando o senhor! Olha só! A alegria universal está perto de todos nós.

Mas, convenhamos, o Sr. precisa ir logo, já que está perdendo a noção de realidade. Não desistir de um objetivo é uma coisa. Agora, o que o senhor fez hoje não tem cabimento. Acabei de escutá-lo aqui, em pleno domingo do dia 11 de julho, competindo com o telão da copa do mundo. E hoje, caro Boliviano, caso não saiba, é dia da final da copa. Essas pessoas que ali estão, a uma distância de 300 metros do senhor, não estão tímidas e admirando-o, de longe. Elas estão ali, reunidas, para ver a final pelo telão. Que graças, acabará hoje também. E o senhor deveria respeitar isso e desligar sua caixinha de som e juntar-se à eles e não aumentar o volume, Sr. Boliviano. As pessoas não são surdas e caso o Sr. esteja cantando para Deus, quero lembrá-lo que ele também não é e já deve ter lhe escutado.

O Sr. está bem grandinho para perceber que nem sempre as pessoas querem escutar você. O senhor não pode achar que é o centro das atenções. Por exemplo, agora, o centro das atenções, na rua XV e no resto do mundo, é a final da copa. Entende que eu quero dizer senhor boliviano? Tem hora pra tudo.

Mas caro Sr boliviano sem noção. Se ainda não conseguiu reunir todas as moedinhas necessárias para encontrar sua amada, quero lhe sugerir uma estratégia fantástica.
Acredito que por mais que o público que passe pela XV mude todos os dias, quem viu o senhor aqui, já viu, quem não ouviu, perdeu a oportunidade. O senhor não pode ficar esperando um fã ricasso no mesmo lugar. Você e suas musiquinhas deveriam ir pra bem longe daqui. Vai que lá naquele longínquo lugar existam pessoas que não se importem de ouvi-lo todos os dias e encantem-se com seu playback desafinado? Que achem o máximo essas flautinhas repugnantes?

Meu medo, Sr boliviano, é que caso o senhor não saia desse lugar logo, as pessoas podem irritar-se, ficar agressivas, desesperadas e armar um plano maquiavélico pra nunca mais ter que escutá-lo. Existem pessoas que querem, as vezes, um pouco de silêncio no lar. Um pouco de paz. E que, para isso, não se responsabilizam pelas possíveis conseqüências que podem arcar para que este silêncio se estabeleça, não é mesmo?

O senhor deve pensar: que mal três musiquinhas podem oferecer?
Eu lhe respondo: A borboleta que bateu asas e provocou um tufão no outro canto do mundo também não sabia que seria a protagonista da teoria do caos. Mas eu estou aqui sendo sua amiga, e lhe avisando: Vá para longe, bem longe daqui, antes que seja tarde.

Até nunca mais, Sr Boliviano. Com todo o respeito, quando encontrar sua amada castelhana Jude, mande-a bem para o meio daquele lugar. E com licença, preciso escrever uma carta para o professor Galdino quarenta e cinco zero vinte um.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

31 de março

Curitiba. Essa tendência que se cria de tentar entrar na mesma freqüência dela. Frenética, acelerada. Duas horas de nada pra fazer entre os entres corridos e, ao invés de se preocupar com o amanhã, você se permite sentar no banco da praça e observar.
Eu e mais duas. Uma, de aniversário. Detalhe mais que significativo, já que pelo menos hoje, a gente tenta dar um jeitinho de deixar o dia mais colorido.

Devia ser umas duas horas da tarde, e nós ali, sentadas no banco da praça. Dia gostoso, nem sol de mais, nem de menos. Antes mesmo de pensar em focar em algo, nossos olhares já estavam fixados em dois meninos de 6,7 anos e uma garotinha, mais velha, com seus 8, 9. Os dois meninos nem aí pra ela, na gangorra, divertindo-se horrores. E a garotinha, tentando de todos os jeitos chamar a atenção deles: Jogava-se em cima da gangorra em que eles estavam, tentava tirar à força um dos dois de lá, saia correndo e ia brincar no escorregador com cara de “eu tenho um escorregador só pra mim, venham aqui roubar ele de mim”. E nada. E entre pausas e movimentos bruscos, ela tentava de tudo. Mas entregar o jogo e convidá-los pra brincar? Jamais.


Mal sabia que esse era só o começo de relações entre as várias que teria com o sexo oposto. E por mais que ela crescesse, as atitudes não mudariam muito não. Mas ela era forte e poderia suportar isso. Naquele joguinho de “não estou nem aí pra vocês dois”, ela, sem querer, acabou se convencendo que não precisava deles pra brincar. E foi pra outra gangorra, sozinha: Usava o peso do seu corpo pra andar sobre o brinquedo, equilibrando-se. Ali a menina ficou, concentradíssima, pesquisando a movimentação focada no fator peso em um espaço alternativo. Nem olhava mais para os lados. E não era ceninha não.

Talvez, por percepção masculina ou por infeliz coincidência, no momento em que ela estava realizada so-zi-nhaaaaaaaaa, os meninos foram até a gangorra da garotinha, imitar o que ela estava a fazer. E foi aí que ela viu que poderia ser feliz de verdade: O sorriso mais que sincero, aberto, largo, meio sem jeito, expondo o desejo guardadinho.Han, agora sim! Sua hiperatividade denunciava o entusiasmo de ter tão perto o que ela quis tanto.

E como se já não bastasse tamanha alegria, ela estava no comando da brincadeira. Eles a imitavam. Eles estavam ali, fazendo o que ELA tinha inventado. É, realmente, eles não saberão mais viver sem mim, sem a minha criatividade, minha genialidade, minha experiência na arte de brincar, ela pensava, obviamente. A garota, extasiada, sentia-se uma princesa: Já desenhava seu futuro, visualizava várias tardes felizes em outros parques, com aqueles dois. Han, como a vida é colorida!

E, em menos de três minutos, os meninos enjoaram da brincadeira e foram para o escorregador, sem titubear. E ela, em pausa, olhou desapontada para os dois afastando-se cada vez mais dela, que sequer olharam para trás.
A menina não viu outra saída a não ser sair correndo e parar no colo da sua mãe.